domingo, 16 de junho de 2019

O Sonho dos Heróis de Adolfo Bioy Casares

        



         A ação de O Sonho dos Heróis se desenvolve sem grandes acontecimentos e emoções. Acompanhamos Emílio Gauna, um rapaz desinteressante, enquanto ele vive sua vidinha mesquinha e tenta lembrar mesquinhamente os acontecimentos de três dias passados em um carnaval específico. Não há, ao menos não percebi, nenhuma indicação de que o autor tenha tentando demonstrar que o instante é mágico, ou carregado de significados. Não. Gauna, os outros rapazes e o Doutor - o velho que é um exemplo de vida para os jovens valentões que compõem o grupo de amigos do protagonista - são humanos pequenos, desprovidos de graça. Assim, o mate é o mate e só, sorvido com biscoitinhos doces descritos duramente, sem qualquer detalhe encantador. O amigo hipocondríaco é leal, mas sua amizade está fundada na presença e na existência de um passado e de um presente em comum, sem provas, sem declarações. O amor... Bem, há uma ou outra fala do protagonista que determina a existência de alguma dose de amor, como quando ele diz a Clara - única personagem feminina mais ou menos interessante na narrativa - que ela o ensina a ver, mas não há nada de arrebatador nessa declaração. E nem sequer um místico, o Bruxo Taboada, sustenta um discurso que possa ser chamado com um mínimo de seriedade de minimamente metafísico. A capacidade que esse personagem tem de entender o destino do protagonista e dos outros tem a origem ligeiramente explicada na descrição do cenário de seu consultório: abarrotado de livros. Sabedoria mundana, só isso. Coerentemente, os conselhos que ele entrega ao protagonista, durante uma consulta paga, poderiam muito bem ter saído da boca de um velho pai preocupado, cujos argumentos retiraria de suas leituras e vivência pessoal e não necessariamente de contatos com os mistérios do mundo. 
          Apesar do tom opaco da narrativa, o protagonista, acometido por amnésia alcoólica, atribui aos dias de um carnaval  específico o encanto e o mistério que não existe nem em sua vida de personagem, nem na forma da história construída pelo autor. Mas tal paradoxo está encravado no todo de forma tão sutil que é difícil afirmar que foi intencional. A intencionalidade, porém, combinaria com o desfecho. 
       O Sonho dos Heróis é, portanto, um daqueles livros que a gente se pergunta porque está lendo. Achei sem graça, sim!, mas não consegui parar de pensar nele depois que terminei a leitura. Estou evitando começar outro, para não perder o contato com tais pensamentos antes de terminar de escrever isso aqui. Quero expor algumas possibilidades de intertextualidade que percebi e também algumas questões mais ou menos profundas que foram evocadas pelo texto. Recortei trechos para poder compartilhar e quero comentar pelo menos um deles. Vejamos o que consigo fazer. 


Um trecho de O Sonho dos Heróis

[...] "Que desgraça ter passado três anos tentando reviver aqueles momentos como quem tenta reviver um sonho maravilhoso"; no seu caso, um sonho que não era um sonho, mas a epopeia secreta de sua vida. E quando conseguiu resgatar da escuridão parte dessa glória, o que viu? O incidente do violinista, o incidente do menino, o incidente do cavalo. As crueldades mais abjetas. Como o mero esquecimento pôde transformá-las em algo precioso e nostálgico? (CASARES, 2019, p. 171)


           Antes de qualquer coisa, devo esclarecer que não estou preocupada em evitar espoilers. Até porque acho preocupação com spoiler uma coisa ridícula quando o assunto é literatura. Para mim, conta muito mais a forma como a história se desenrola do que o desfecho de um livro. 
         Como já expliquei, nos parágrafos acima, achei esse livro bem sem graça. Apesar de o desfecho ter mexido bastante comigo. Em concordância com essa sensação, todas as marcações que fiz pensando na escrita posterior de uma resenha/quase-ensaio/ artigo/ post/ ou sei-lá-como-classificar-isso-aqui foram das últimas páginas do livro. Então, para fazer um pouco de sentido, preciso contextualizar.



A contextualização


          No início de O Sonho dos Heróis, Gauna, o  protagonista, ganha uma grande quantia em dinheiro porque seu barbeiro o convenceu a apostar num cavalo azarão chamado Meteórico. Ao invés de fazer qualquer coisa útil com o prêmio, o jovem de 23 anos  convida um grupo de arruaceiros, amigos seus, para se reunirem durante o carnaval e gastarem cada centavo daquela pequena fortuna na esbórnia. O problema é que no final da festa, o tal do Gauna acorda num lugar em que nunca esteve antes, cuidado por pessoas desconhecidas e sem se lembrar de quase nada do que aconteceu. Ao invés de memórias daqueles dias, ele guarda sensações que o fazem acreditar que o carnaval de 27 foi o melhor momento de sua vida. 
          O tempo passa. Gauna consulta um bruxo chamado Taboada que o aconselha a parar de tentar reviver o que foi esquecido. Na saída do consultório, que fica na casa do místico, ele conhece Clara. Acontece um namoro, nosso protagonista é machista até o osso, mas acaba se rendendo ao amor e se casa com a filha do Bruxo. Um dia, porém, Taboada fica doente. Clara se ausenta da casa, que agora divide com o marido, para cuidar do pai. Nesse exato dia de ausência da esposa, Gauna, ora vejam!, tinha novamente apostado em um cavalo azarão por indicação de um barbeiro e ganhado outra quantia considerável. Outra vez,  ao invés de fazer qualquer coisa útil com o dinheiro - reformar o casebre em que mora, abrir uma pequena empresa, subir na vida, - adivinhem o que o bocó faz? Sim, isso mesmo! Ele vai reviver os dias que julga terem sidos os mais gloriosos de sua existência. 
Três anos se passaram desde a amnésia e Gauna segue todos os passos daquele carnaval, tentando lembrar o que exatamente aconteceu. Convida os mesmos arruaceiros e segue de bar em bar, as locações em que havia estado em 1927. Nessa jornada, ele descobre finalmente que os valentões não lhe tinham amizade, que todo o grupo era formado por pessoas abjetas (inclusive ele mesmo) e que os lugares que visitaram e as atitudes que tiveram nos três dias do carnaval foram as piores possíveis. 

Os pensamentos que me impregnaram ao final da leitura


           Quem não tem um período da vida que julga ter sido o melhor de todos e para o qual gostaria de voltar? Uma cidade natal onde tenha passado a infância, a adolescência? Quem não tem uma turminha de colégio que gostaria de rever? Dias de festa e energia juvenil perdidas nas brumas do tempo com os quais se sonha e pelos quais se acorda nostálgico, melancólico, entendendo o agora como o pior dos mundos? 
          Sim, esse livro é simples. Contudo, histórias simples têm uma probabilidade maior de, de alguma forma, coincidirem com as nossas próprias histórias. Posto isso, fico aqui matutando que autores de talento mediano para baixo talvez devessem tentar esse tipo específico de narrativa. A possibilidade de sucesso seria maior. 

          O problema de memória do nosso amigo Gauna, porém, é uma versão, talvez, nada genial do complexo dilema ético do jovem sem nome de Memórias do Subsolo de Dostoiévski. Aliás, essa é uma das coisas nas quais não consigo deixar de pensar depois de ter acabado de ler O Sonho dos Heróis: qual o tamanho da influência dostoievskiana na obra desse Adolfo Bioy Casares? Porque uma das "crueldades mais abjetas" a que o narrador se refere, a saber, o "incidente do cavalo", também é muitíssimo parecida a um sonho do protagonista de Crime e Castigo: um mujique impõem uma tortura abominável a um cavalo que morre em decorrência dela, mas não sem antes lançar seu olhar quase humano de humilhação, tristeza e miséria ao protagonista. 

Em O Sonho dos Heróis:


[...] O doutor apanhou as rédeas e mandou ele pegar o chicote. "Agora!", gritou o doutor, e deu um puxão; com o chicote ele tentou animar o cavalo. O doutor começou a perder a paciência. Cada puxão nas rédeas era mais brutal que o anterior. [...] Os puxões tinham machucado a boca do animal. Rasgadas pelo freio as comissuras da boca sangravam. Um abismo de calma inabalável parecia refletir-se na tristeza de seus olhos. (CASARES, 2019, p.169)



           O terror prossegue por três, talvez quatro páginas. O cocheiro, dono do cavalo, clama para que tenham misericórdia do animal que já o serviu tanto nessa vida. Mas os rapazes e o doutor são atrozes e seguem a tortura entre risos e chicotadas. Até que um deles dá um tiro no meio das fuças do cavalo e adianta o fim do terrível incidente. Enquanto isso, Gauna, o protagonista, observa estático e aterrorizado.

Em Crime e Castigo 


[...] Foi um sonho estranho o que teve Raskolhnikov. Sonhou com sua infância na sua aldeia natal. [...] Todos sobem para a carroça de Mikolka com risos e gracejos. Eram seis homens e ainda havia lugar para mais. Levavam com eles uma mulher gorda e pintada. [...] Ouve-se um eia!, a eguazinha puxa com todas as suas forças, mas não vai a galope; mal consegue se mover a passo, limitando-se a agitar as patas, arranhar o solo e dobrar-se sob os golpes dos três chicotes, que caem sobre ela como uma saraivada. [...] (DOSTOIÉVSKI, 2007, p. 71-73)



         Nesse trecho do texto de Dostoievski, também há risadas e gargalhadas. Há prazer, nos envolvidos, em impingir sofrimento ao animal e uma aura de esbórnia paira na cena. Enquanto isso, o protagonista, em seu estado onírico, é uma criança que observa apavorada. 
        O personagem dostoievskiano, assim como o Gauna de Adolfo Bioy Casares, nesse momento da história, também está passando por uma ressignificação se seu passado. Poderíamos chamar essa ressignificação de desencantamento. Contudo, mais à frente na narrativa, ele vai cometer um crime hediondo: matar duas pessoas e uma delas, ele mesmo julga, não merecia de forma alguma o final violento que ele a impõem. O arco narrativo de O Sonho dos Heróis guarda maiores semelhanças com o outro romance de Dostoiévski que citei: Memórias do Subsolo. Nessa história, o personagem principal encontra por acaso com ex-colegas de escola. Ele não se revela, apenas observa enquanto rememora sua suposta superioridade moral. Após páginas e páginas, o personagem abandona a taverna onde estava. Então,  por acaso, ele se vê diante de uma mulher sozinha e em perigo. O protagonista de Memórias do Subsolo tem o poder de salvá-la, mas ao invés disso (cuidado! Spoiler!!!!) a estupra. 

                É verdade que Gauna não cometeu ele mesmo nenhum crime, nem no primeiro carnaval de 27, nem no segundo. Contudo, ele se deparou com o tamanho real de sua moralidade assim como os dois personagens dostoievskianos. Acredito que o mote dessas três histórias é basicamente esse. Não existe um sujeito bom, a bondade é uma escolha árdua, trabalhada e aprimorada dia após dia. E, nesse difícil trabalho, Gauna entende quando já é tarde, a nostalgia é uma espécie de egoísmo autodestrutivo

                 Eu estava conversando sobre esse texto que estou escrevendo com uma amiga e ela me perguntou com leveza: "Você gosta do Raskolhnikov?" Eu não poderia responder outra coisa senão que sim, eu não só gosto como tenho empatia por Raskolhnikov.  Sinto o mesmo pelo personagem sem nome de Memórias do Subsolo, mas não consegui me ligar emocionalmente ao Gauna de Adolfo Bioy Casares. Isso me fez pensar que talvez essa seja a diferença entre um grande livro/ grande escritor e um livro/escritor mediano. Mesmo o Raskolnikov sendo um assassino cruel, ele tem humanidade o bastante para ser alvo da minha empatia. Porque a personalidade dele foi construída de forma quase tão complexa quanto a personalidade de um ser humano real. Ele é tão grande como ser que eu pude encontrar e me apegar aos pontos positivos de sua personalidade. Ao passo que o Gauna e todos os outros personagens criados por Casares em O Sonho dos Heróis me pareceram rasos e, portanto, artificiais. Não foi um mal livro, no geral. Talvez se eu tivesse lido na adolescência eu não percebesse nada do que escrevi aqui. 
Apesar de deixar claro, vez após vez, que não gostei de Os Sonhos dos Heróis, tenho também pensado que a falta de profundidade apresentada pelos personagens de Casares, neste romance, é, talvez, resultado de uma excelente descrição do egoísmo autodestrutivo. Afinal, escolher abrir mão do presente povoado de felicidades compartilhaveis, em nome da nostalgia de um passado que é essencialmente individual, empobrece e amesquinha a vida. Em oposição a isso, os personagens de Dostoiévski sonhavam com sua suposta grandeza, acreditando que fariam algum tipo de bem ao mundo. Não fizeram, mas o engano arrogante pode ser um atenuante para as atrocidades que cometeram.  No final das contas, bandidos confessos podem ser melhores pessoas que homens de bem extremamente nostálgicos.  É de se pensar.
        Vou deixar abaixo outras duas citações que recortei de O sonho dos heróis. Elas me serviram para pensar sobre o tempo, sobre os efeitos dele sobre nossa personalidade e consequentemente como deslocamos nosso lugar no mundo quando amadurecemos. Eu também poderia ocupar linhas e mais linhas escrevendo sobre as questões relativas à memória e à História (a disciplina mesmo, com letra maiúscula) que esse livro me evocou, mas não tenho mais tempo para isso nesse domingo. Talvez, quem sabe um dia....
Gauna perguntou-se como pôde imaginar que ao entrar nos três dias de carnaval recuperaria o que sentira da outra vez, entraria novamente no carnaval de 27. O presente é único: era isso que ele não tinha percebido, isso que derrotava suas pobres tentativas de magia evocatória. p. 176.
Eis o secreto horror do maravilhoso: ele maravilha. p. 197.

P.S.: Desculpem por favor a variedade de fontes e tamanho de letra. Isso aconteceu porque escrevi partes do texto no word e a formatação que o blogger me permite fazer é bem limitada.