O carro parou, ela agradeceu a carona e desceu. Deu um tchauzinho tímido enquanto o veículo se afastava pela avenida principal e estancou por instantes na calçada entre as pessoas estranhas que passavam. Depois se pôs a caminhar e dobrou na esquina de uma ruazinha deserta. Subindo cerca de trezentos metros, não muito íngremes mas bastante ensolarados, o coração se pôs a bater pontudo e duro dentro do peito. A respiração foi se tornando cada vez mais densa e as pernas começavam a não obedecer. Apoiou as costas em algo não identificado e pediu silenciosa a Deus que a teletransportasse para o destino desejado. Foi então que ouviu folhas secas farfalharem e sentiu uma rajada de ar fresco na testa. Ergueu a cabeça abrindo bem os olhos e viu, vindo de trás do portão metálico em que se encostava, uma bandeirola pequena de papel cinzento. E mais uma, e uma, e outra. Até que o vento acabou. Um ruído longínquo de conversa fez-se próximo e quase nítido. Eram vozes jovens, muitas, indistintas. Ainda sem certeza, bateu três vezes no metal e gritou: alguém pode abrir pra mim por favor? Foi quase imediatamente atendida. A chave rodou no miolo e o portão abriu uma greta estreita por onde apareceu meio corpo de uma mulher, cuja cabeça grisalha dizia: oi, posso ajudar?
Oi. Então. Meu nome é Clara, eu queria conversar na Biblioteca porque me disseram que a escola está doando livros e papéis antigos. E eu tenho interesse.
A sim, é verdade, a mulher observou indecisa. Em seguida, gaguejou um pode entrar enquanto sumia, ao mesmo tempo que aumentava convidativamente a abertura do portão. Clara respondeu ao gesto movendo-se também para dentro da escola. E, de uma vez inserida no pátio central, foi tomada pela impressão claríssima de uma revelação chocante. De pé estava. Bem diante de um pátio escolar. Abarrotado de adolescentes que usavam tesourinhas sem pontas contra montes e montes de folhas de jornal. Uma vez picotadas, essas folhas eram coladas, num ritmo quase industrial, na forma de bandeirolas, em longas cordas de barbantes.