sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Você era inteligente. 

Como? Por que? Você mesmo acabou de falar que eu nem era tão boa assim. 

Sei lá, você era. Falava pouco, mas sempre sabia o que dizer. Tinha a palavra na ponta da língua, e guardava.

Então atualiza. Acrescenta uma frase naquela merda de poema. Crescer é perder isso. É falar sem parar e esquecer o que queria dizer bem no meio da frase. É duvidar do que pensa. É sumir por dentro. 

Ele ficou parado, cabeça baixa e pareceu querer disfarçar que seus lábios guardavam um sorriso. Depois de ter premeditado em milésimos de segundos a performance que tinha acabado de fazer, ela esperava piedade da parte dele, talvez um pouco de contestação, só nunca esse riso mal dissimulado. Por isso, surpresa e ligeiramente envergonhada, reclamou: O que foi? Que cara é essa?

Nada - Ele fez que ia pegar alguma coisa no bolso, mas desistiu. Olhou pra ela de novo e manteve silêncio por instantes. A moça aguardou, quase sem respirar. Pressionado pela espera dela, ele disse cheio de pausas - acontece que... é muito agradável pra um adulto, olhar uma adolescente e..., internamente, de certa forma, apostar consigo mesmo se... com aquele ser humano isso que você acabou de descrever vai acontecer. 

Ela entendeu as palavras, entendeu a frases, mas intuiu que alguma parte do sentido daquilo lhe tinha escapado. Tentou formular uma pergunta sobre o que ele tinha acabado de dizer, mas alguém chegou para cumprimentá-lo. Então formou-se um grupinho de uns dois homens e três mulheres de meia idade que se perguntavam sobre a família. Fernando apresentou Clara explicando que não era sua filha e sim uma amiga. Ela se obrigou a sorrir e a apertar as mãos dos homens. As mulheres deram-lhe um beijinho em cada bochecha sem perguntarem se podiam. Um dos caras alguns também fez isso depois dos apertos de mãos. Todos quiseram saber de quem ela era filha, neta, bisneta. Perguntavam ao Fernando, não para ela. Das questões sobre as famílias passaram ao assunto tempo, Vasco, Cruzeiro e Flamengo. Quem ganharia, quem seria rebaixado. Por fim, começaram a contar memórias de pesca, de escola, de rua. Aos poucos Clara foi pedindo licença, foi se afastando, foi deixando o copo no balcão e alcançando a rua.