sábado, 7 de março de 2026

 - O susto inicial com os jornais virando bandeirolas é amenizado qdo o Fernando diz que o professor H guarda todas as publicações locais em seu instituto. Escrever passeio ao instituto e Clara tem vergonha de dizer o motivo da pesquisa, então dá ares acadêmicos a ela.

- H e Fernando lembram do clube de cinema e da primeira vez que clara foi. Essa tbm pode ser a entrada da então adolescente no grupo dos professores universitários. Ela viu um anúncio na porta do prédio e decidiu que iria,. Foi como se se tratasse de uma seção de cinema gratuita apenas, sem pretensões intelectuais. O filme era Terra Estrangeira. Ao final, haveria um debate. A professora convidada diz que se trata de um filme que trabalha com a meta linguagem. A adolescente então levanta a mão e diz que não entende que algo que acontece em menos de um porcento do tempo do filme possa definir o filme inteiro. A professora argumenta citando a cena, ela responde que não achava interessante fazer análise sintática de cinema. 

- Eles comentam que quando ela passou num concurso pra dar aulas numa Universidade federal, acharam que teriam mim contato. Ela abandonou tudo. Eles perguntam porque ela abandonou a cidade. Ela conta o que aconteceu entre ela e o professor N. Eles a informam de que ele morreu de câncer, já fazem dez anos. Ela acha interessante que o motivo de ela não ter paradeiro tenha se dissipado dois anos depois de ela ter começado a ser errante. 

- Eles começam a mencionar filmes muito ruins que viram no clube de cinema. Ela menciona que seu filme despreferido é IA. Cita a cena em que o menino pede a uma imagem para ser de verdade. Eles dizem que esse filme nunca foi exibido no clube. 

- Ela se encontra com Adriano. Ele disse que pensou muito nela enquanto escrevia o romance. Ele está lá e é um homem apenas. E ela apenas ela. 

- Ela conta que também escreveu um romance e que ele se chama Withe problems people. Ele diz que não é um bom título e que ninguém compraria um livro com esse nome. Ela concorda.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Corre corre, Los hermanos

Meu mundo e nada mais, Guilherme Arantes

Asas, Adriana Calcanhotto e Antônio Cícero.

domingo, 14 de dezembro de 2025

A pior pessoa do mundo

 Ontem assisti esse filme.

Há um diálogo entre a personagem principal e seu ex-namorado. A mulher diz que a voz dele continua dentro dela e que mantém conversas com ela. O homem diz que isso acontece com ele também. Num dado momento o ex-namorado fala: quando eu me for, a memória que eu tenho de você vai embora comigo.

Esses são pensamentos que me ocupam há muito tempo: tenho vozes na minha cabeça, temo pela morte da minha voz em cabeças alheias. Acho que, no fundo, nossa geração é toda feita de pequenos androides que, como no filme IA, do Steven Spielberg, seguem em busca de uma fada madrinha que finalmente atenderá nosso maior desejo: quero ser de verdade. 

sábado, 13 de dezembro de 2025

Sentada no meio do banco de trás de um Ford K, Ana seguia protegida do sol que ardia a cada lado seu. É verdade que quase não existia espaço para suas pernas, mas a pele e os olhos dos jovens ao seu lado brilhavam tão intensamente que parecia ter sido um bom negócio se sentar no pior lugar do carro. O rapaz à esquerda, barba, camisa estampada com botões abertos até o peito, esticou o pescoço por entre os bancos da frente, debruçando-se levemente sobre o colo de Ana. Nessa posição, gritou ao pé do ouvido do motorista: sabe das últimas notícias sobre investigações policiais no estado de São Paulo? O caroneiro da frente, um rapazinho magrela, torceu o pescoço para acompanhar a conversa. O motorista respondeu que não sabia. O barbudo continuou, a polícia do estado de São Paulo expediu uma ordem de prisão pra Bakunin. 

Pelas janelas abertas do veículo, entrava um vento rebelde que fazia o caos nos cabelos dos passageiros. O barulho do motor e o movimento do ar abafavam qualquer outro som. Provavelmente por isso o motorista não entendeu e perguntou, o quê?! Como quem já esperava pela pergunta, com a cabeça ainda entre os bancos o jovem repetiu: a polícia de São Paulo expediu uma ordem de prisão pra Ba-ku-nin. 

E quem é esse Bakunin?!

Ana interviu dizendo que era um dos teóricos criadores do anarquismo. Essa antecipação, porém, não teve efeito por muito tempo. Empolgado com a legitimidade que a informação tinha acabado de dar àquela anedota, o barbudo inclinou mais uma vez seu corpo suado para explicar que militares ignorantes estavam achando que iam prender um filósofo do século XIX. Como eram burros os fascistas! 

Os três jovens riram e concordaram que fascistas eram sempre muito burros. O quarto caroneiro, que se sentava do lado direito de Ana, e que até aquele momento tinha se mantido isolado em pensamentos com um imenso headphone tapando as orelhas, deve ter ficado curioso com os movimentos animados dos outros rapazes e tirou o fone para participar da conversa. A anedota foi repetida para ele. Todos os rapazes riram como se a ouvissem pela primeira vez. Ana pretendia não opinar, mas a cada fala o equívoco temporal se tornava mais e mais evidente. Até que ela não aguentou e perguntou ao jovem barbudo - Onde você viu essa notícia?

O barbudinho ergueu a coluna e voltou a ocupar estritamente sua parte do banco. Com o rosto tomado pela claridade, seus olhos castanhos se tornaram amarelos. Ele os fixou naquela mulher estranha a seu lado, para quem ainda não tinha olhado, e respondeu - vi ontem, no tiktok.

- Essa notícia é antiga. 

- Não é, aconteceu mesmo. 

- Não estou dizendo que não aconteceu, mas isso foi durante as jornadas de maio, em 2013. 

O rapaz ficou sério, - como você sabe?

- Eu lembro.

O caroneiro da frente torceu o pescoço mais uma vez, queria enxergar Ana com nitidez enquanto dizia - lembro vagamente desses protestos no Jornal Nacional, mas eu tinha só treze anos, estava mais preocupado com a janela sem cortina da vizinha e com qual time eu ia jogar o Fifa. Não dava muita importância pro resto. Você participou de alguma manifestação? 

- Eu até podia ter feito isso, tinha vinte e poucos anos na época, mas achava aquilo ridículo.

Todos os olhares, menos o do motorista, que por motivos óbvios continuava prestando atenção na estrada, se voltaram pra ela. O barbudo então perguntou - quantos anos você tem?

O motorista riu dizendo que não se fazia esse tipo de pergunta para uma mulher. 

Ana respondeu se dirigindo ao motorista, ao invés do rapaz que tinha feito a pergunta - trinta e quatro, eu não ligo de falar minha idade, Caio. Não entendo porque é um problema pra algumas pessoas.

Por alguns segundos todos ficaram calados, somente se ouvia o rugido do motor e do vento. Até que o jovem da direita, que não tinha dito nada ainda, opinou - nunca que parece que vc tem trinta.

Ana emendou - e quatro. Você acha? Obrigada. Está vendo? É melhor receber esse tipo de reação e ser uma velha conservada do que mentir a idade e virar uma mocinha acabada. Nesse instante, os rapazes continuaram sérios. Ana, diferente deles, sorriu pela primeira vez desde a decisão de fazer aquela viagem.

O barbudo quis voltar ao assunto dos protestos de 2013, mas antes se apresentou - você é Ana, né? Eu sou Tiago. 

- Muito prazer, Tiago. 

- Por que você achava os protestos ridículos? 

- Bem, eu não sei se estou com a cabeça boa o bastante para conseguir explicar. Então... Lembro que tudo começou com uma manifestação de estudantes, na cidade de São Paulo, por um motivo exclusivamente paulista. Trinta centavos de aumento no preço de passagens de ônibus. 

- O aumento do preço da passagem é uma demanda importante. 

- Claro, pra quem paga aquela passagem, naquele lugar específico. Não quero dizer que não era um assunto importante. Ainda não cheguei no ponto. Pra chegar onde eu quero chegar, preciso contextualizar que tudo começou com essa manifestação de estudantes, sobre um assunto local. Só que o governo do estado de São Paulo foi com toda a força policial pra cima daqueles estudantes desarmados. Isso causou uma comoção entre pessoas que não eram estudantes. Vamos chama-los de adultos, só para separar os grupos, didaticamente. Mas idade não era a questão. A questão é que a truculência de um governo, transformou um protesto específico numa demonstração de desagrado com o poder e com a forma que ele vinha sendo exercido. Aí, na hora de demonstrar essa insatisfação, o povo... Os diferentes grupos que formam o que a gente chama de povo, foram todos pra rua. Cada grupo, por mais insignificante que fosse, levou sua demanda, sua reivindicação, sua insatisfação. E a coisa que começou em São Paulo, por 30 centavos de aumento no preço da passagem, cresceu e tomou o Brasil inteiro. Até que eu estava em casa, assistindo o Jornal Nacional, como você - ela apontou para o magricela - e o que eu via era uma multidão na lage do Palácio do Planalto. Os políticos todos lá dentro e os manifestantes em número, em massa, em cima, em volta, em toda parte.  A polícia não daria conta deles se quisessem mesmo fazer uma revolução e tomar o poder. Mas não queriam nada específico, nada! O que se mostrava alí era mera insatisfação, sem proposição. Engraçado é que fizeram uma pesquisa naqueles dias, sobre a aprovação da presidente. E ela estava no auge. Eu não lembro os números, mas era uma coisa de gerar machete em revista estrangeira de tão grande. Isso eu não sabia com tanta clareza na época, mas negar tudo e todos, sem propor absolutamente nada foi uma das grandes características do mais terrível fascismo. Não deveria ter sido uma surpresa que, pouco tempo depois, esse país mergulhasse na onda conservadora em que mergulhou. 

Houve instantes se silêncio. Foi Caio, o motorista, quem interrompeu com a pergunta - e você já sabia disso tudo quando via os protestos no Jornal Nacional?

- Não. Mas eu senti que alguma coisa não caia bem.


 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Você era inteligente. 

Como? Por que? Você mesmo acabou de falar que eu nem era tão boa assim. 

Sei lá, você era. Falava pouco, mas sempre sabia o que dizer. Tinha a palavra na ponta da língua, e guardava.

Então atualiza. Acrescenta uma frase naquela merda de poema. Crescer é perder isso. É falar sem parar e esquecer o que queria dizer bem no meio da frase. É duvidar do que pensa. É sumir por dentro. 

Ele ficou parado, cabeça baixa e pareceu querer disfarçar que seus lábios guardavam um sorriso. Depois de ter premeditado em milésimos de segundos a performance que tinha acabado de fazer, ela esperava piedade da parte dele, talvez um pouco de contestação, só nunca esse riso mal dissimulado. Por isso, surpresa e ligeiramente envergonhada, reclamou: O que foi? Que cara é essa?

Nada - Ele fez que ia pegar alguma coisa no bolso, mas desistiu. Olhou pra ela de novo e manteve silêncio por instantes. A moça aguardou, quase sem respirar. Pressionado pela espera dela, ele disse cheio de pausas - acontece que... é muito agradável pra um adulto, olhar uma adolescente e..., internamente, de certa forma, apostar consigo mesmo se... com aquele ser humano isso que você acabou de descrever vai acontecer. 

Ela entendeu as palavras, entendeu a frases, mas intuiu que alguma parte do sentido daquilo lhe tinha escapado. Tentou formular uma pergunta sobre o que ele tinha acabado de dizer, mas alguém chegou para cumprimentá-lo. Então formou-se um grupinho de uns dois homens e três mulheres de meia idade que se perguntavam sobre a família. Fernando apresentou Clara explicando que não era sua filha e sim uma amiga. Ela se obrigou a sorrir e a apertar as mãos dos homens. As mulheres deram-lhe um beijinho em cada bochecha sem perguntarem se podiam. Um dos caras alguns também fez isso depois dos apertos de mãos. Todos quiseram saber de quem ela era filha, neta, bisneta. Perguntavam ao Fernando, não para ela. Das questões sobre as famílias passaram ao assunto tempo, Vasco, Cruzeiro e Flamengo. Quem ganharia, quem seria rebaixado. Por fim, começaram a contar memórias de pesca, de escola, de rua. Aos poucos Clara foi pedindo licença, foi se afastando, foi deixando o copo no balcão e alcançando a rua. 

sábado, 7 de junho de 2025

Epígrafe

E de repente estava em pé com o celular ainda encostado na orelha. Já não havia mais voz do outro lado. Em meio ao mugido constante da cidade, ouviu som de sirene. Lembrou a letra de uma canção de rock: "As sirenes que se apressam pra salvar atropelados que morreram, tão depressa, tão depressa, depressa, depressa demais." 

Em algum lugar, um infarto, um AVC, um último suspiro, tantos males possíveis. Mas por que não um parto? A possibilidade iluminou sabe-se lá o quê por dentro. E, sim. Era melhor abandonar a canção e pensar num parto! 

Talvez a sirene corresse para um nascimento, por que não? Voltou a si. Estava mesmo de pé. A mão direita agarrada ao celular espremido com força contra a orelha. Silêncio. Não havia mais ninguém do outro lado. 

O corpo todo ancorado na estante de livros. Incrédula e só. Dizia de si para si e sobre si. Sem objetivamente terminar de dizer. Meu... Estupefata... Deus! Quem ainda usa "estupefata"? Pensava ao mesmo tempo. Meu Deus! Por quê essa palavra agora? Três vezes. Agora? Agora. Agora! Meu... Estou... Deus!... Sozinha.

Só. Olhou os livros na prateleira à altura dos olhos. 

História Concisa do Brasil, Boris Fausto, não li. Uma ideia toda Azul, li. A Genealogia da Moral, li. Esse aqui, não li, esse não li... não li... não li... Li. 

Tirou a encadernação fininha e amarelada da prateleira. No Tempo Dividido e Mar Novo, Sophia de Mello Breyner Andresen. Abriu. 

No alto da folha de rosto, um nome: Celso. Abaixo do nome, em caneta cinza: 1991. No meio da mesma página: Isabela e 2009, em caneta vermelha. Por que seu próprio nome não constava ali? Talvez porque nunca aquele livro tenha sido realmente seu. Não importa. 

Em canetas distintas, em tempos distintos, na folha de papel amarelada, o encontro que nunca aconteceu. 

Avançou as páginas sem rumo e foi parar num poema. leu e pensou que seria uma epígrafe e tanto.


"A memória longínqua de uma pátria 

Eterna mas perdida e não sabemos

Se é passado ou futuro onde a perdemos". 


sábado, 24 de maio de 2025


 Tenho  robes diferentões. Um deles é cismar com uma música e então ouvir todos os covers e versões que estiverem disponíveis na rede. Mês passado eu estava agarrada com Choveu, do Beto Guedes - aliás, é uma pena que a Orquestra Ouro Preto ainda não tenha se debruçado sobre a obra dele. Essa semana eu tô na Paranoid Android do Radiohead. Eu acho que boas composições populares, independentemente do estilo, são ótimas peças prontas para orquestra. Então é lógico que eu assisti esse vídeo um milhão de vezes. Em tempo, como são musicalmente ricas as composições do Radiohead. Em especial as músicas do Ok Computer. Inclusive, um sub robe meu é buscar versões deles em violoncelo ou quarteto de cordas. A voz do Tom Yorke soa em mim de forma muito semelhante aos médios do violoncelo e aos agudos da viola.