domingo, 30 de março de 2025

 Meus bisavós chegaram da Europa com uma mão na frente e outra atrás. Não conheciam ninguém, não tinham nada. Nem um ao outro eles tinham, se conheceram aqui. Construíram essa casa, tiveram filhos, abriram uma loja, fizeram parte da sociedade. Tiveram amigos, inimigos, criaram raízes. Eu nasci aqui e vou morrer completamente solta. 

A época era outra, quase todo mundo estava na mesma situação que eles. 

E você vai negar que quase todo mundo hoje está na mesma situação que eu? Se o ângulo for esse, então eu e meus bisavós somos realmente iguais.

Não concordo totalmente. 

Então você concorda parcialmente? 

É. Só parcialmente.

Por quê?

Quem você está chamando de todo mundo? Acho que não entendi direito a última parte do que você disse.

Deixa pra lá. Eu não disse nada com dada mesmo. E sorriu desviando-se em direção a outra estante. 

domingo, 16 de março de 2025

The Strokes - The Adults Are Talking (Official Audio)

The Adults Are Talking

(Clara detesta cheiro de cerveja e despejou na pia quase tudo que lhe serviram. Mas sempre  alguém lhe entregava outro copo. Ela, por educação, não reclamava, ou reclamava e não era ouvida. Então, carregava o copo consigo por algum tempo antes de se livrar dele)

Todos os que restaram estavam reunidos na sala. Raul, sentado no sofá, entregava o corpo magro ao conforto do estofado e fumava muito à vontade, o cigarro em uma das mãos, uma xícara na outra. Do outro lado, perto da porta, Adriano se escorava na parede de braços cruzados, a espera de alguma coisa que Clara não entendia. No centro do cômodo, Leandro e Marina estavam sentados no chão como duas crianças, um de frente para o outro. O rapaz segurava a capa de um disco do Roberto Carlos e tagarelava alguma coisa sobre a avó, gesticulando bastante e usando o objeto como ilustração da história. Marina sorria mantendo os olhos embotados bem fixos no rapaz. Provavelmente eles se pegariam quando os outros fossem embora - Clara elaborou mentalmente essa sensação e, antes de organiza-la em pensamento, olhou para Adriano. Sem dizer uma palavra ele sorriu, inclinando a cabeça em sinal de acordo. Em seguida foi em direção ao amigo e, pondo as mãos em seus ombros, falou: - Seu filho da puta, dá uma pausa no xaveco e abre a porta pra mim, por favor? Cadê a chave? 

Clara não ouviu, já tinha dado meia volta e ido até a cozinha quando Adriano terminou a frase. O globo de vidro ainda girava, repartia, e atirava a luz em todas as direções.  Reconheceu a banda pelo som  que vibrava na caixinha em cima da mesa, Strokes. O celular largado ao lado era a fonte. Pegou o aparelho, iluminou a tela inicial e viu o nome da música: The Adults Are Talking. Ela ainda segurava um copo de cerveja quente. Lembrou do sonho. O tempo ia acabar, o refrão já estava pra lá da metade. Colocou o copo sobre a mesa e começou a dar uns pulinhos, como soluços tímidos. Sentiu-se ridícula e parou. Fechou os olhos decidida a se esforçar mais. Braços, pernas, cabelos de um lado para outro. Aquela não era uma música que as pessoas costumavam dançar, mas tinha uma bateria clara. A voz aguda, suave. A guitarra repetitiva. O baixo repicando.  Só precisava sentir tudo. E pular com mais coragem. E mais coragem. E mais. E balançar a cabeça e deixar-se descabelar. Girar. Isso! Girar. Balançar os cabelos, a cabeça, os braços. Parar de pensar.

Ao solo de guitarra, ao teclado, a bateria, Clara estava entregue. Solta. Livre. Mas o volume foi baixando aos poucos e a música acabou. Ela perdeu o equilíbrio, cambaleou e abriu os olhos. Adriano estava a sua frente, com um sorriso largo. Perturbada, Clara não fez e nem disse nada. Ele estendeu o braço e falou: vem, eu te levo pra casa. Ela aceitou e segurou a mão dele. Passaram pela sala, Raul tinha dormido com a xícara, repleta de cinzas, no colo. Desceram as escadas. Leandro e Marina conversavam na calçada. Ele tentava convencê-la a ficar mais um pouco: o Raul ainda vai contar umas histórias, a noite é uma criança. 

Quantos clichês, Clara pensou. E teve medo de corar, naquela idade, quando percebeu a reação dos dois ao verem que ela e Adriano estavam de mãos dadas. 

Ah, não! É sério? Vocês dois? Que maravilha! Mas eu preciso arranjar amigos melhores, vocês são muito desanimados. Clara, você já vai também? 

Marina se abriu toda num abraço e apertou Clara e Adriano, ao mesmo tempo, dizendo: Finalmente! 

Adriano ficou um pouco desconcertado e, terminado o arroubo de felicidade da moça, disfarçou agarrando Clara pela cintura, puxando-a para mais perto de si. Então voltou a atenção para Leandro: Desanimado é você, cara. A Clara está tão animada que o carro dela vai ficar aí estacionado, e nós vamos à pé. Ela interrompeu assustada: vamos? Ele levantou a mão esquerda e mostrou novamente a tala, embora isso aqui não me impeça de quase nada, andar de bicicleta, fazer flexão ou dirigir não são atividades aconselháveis. E você bebeu um pouquinho, então vai pra casa andando. Eu faço sua segurança. Tudo bem?

Tudo bem, ela respondeu. Deixou quieto o fato de que não tinha bebido praticamente nada.  De qualquer forma, estar um pouco tonta era o álibi perfeito para a dança esquisita que Adriano tinha acabado de flagrar.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Para continuar o texto sobre o Sonho dos Heróis

 Ideia: não desenvolvemos empatia pelas histórias semelhantes às nossas, mas sim pela humanidade das boas histórias. A humanidade é complexa, as boas histórias também. 

Emprestei O Sonho dos Heróis para uma jovem recém saída da adolescência sem dizer nada sobre o autor ou sobre o livro. Ela não teve qualquer influência negativa, tampouco positiva para contaminar sua impressão. E o comentário que ela desenvolveu quando acabou de ler foi: que livro chato!