(Clara detesta cheiro de cerveja e despejou na pia quase tudo que lhe serviram. Mas sempre alguém lhe entregava outro copo. Ela, por educação, não reclamava, ou reclamava e não era ouvida. Então, carregava o copo consigo por algum tempo antes de se livrar dele)
Todos os que restaram estavam reunidos na sala. Raul, sentado no sofá, entregava o corpo magro ao conforto do estofado e fumava muito à vontade, o cigarro em uma das mãos, uma
xícara na outra. Do outro lado, perto da porta, Adriano se escorava na parede de braços cruzados, a espera de alguma coisa que Clara não entendia. No centro do cômodo, Leandro e Marina estavam sentados no
chão como duas crianças, um de frente para o outro. O rapaz segurava a capa de um disco do Roberto Carlos e tagarelava alguma coisa
sobre a avó, gesticulando bastante e usando o objeto como ilustração da
história. Marina sorria mantendo os olhos embotados bem fixos no rapaz. Provavelmente eles se pegariam quando os outros fossem embora - Clara elaborou mentalmente essa sensação e, antes de organiza-la em pensamento, olhou para Adriano. Sem dizer uma palavra ele sorriu, inclinando a cabeça em sinal de acordo. Em seguida foi em
direção ao amigo e, pondo as mãos em seus ombros, falou: - Seu filho da
puta, dá uma pausa no xaveco e abre a porta pra mim, por favor? Cadê a
chave?
Clara não ouviu, já tinha dado meia volta e ido até a cozinha quando
Adriano terminou a frase. O globo de
vidro ainda girava, repartia, e atirava a luz em todas as direções.
Reconheceu a banda pelo som que vibrava na caixinha em cima da
mesa, Strokes. O celular largado ao lado era a fonte. Pegou o aparelho, iluminou a tela
inicial e viu o nome da música: The Adults Are Talking. Ela ainda segurava um copo de cerveja quente. Lembrou do
sonho. O tempo ia acabar, o refrão já estava pra lá da metade. Colocou o copo sobre a mesa e começou a dar uns pulinhos, como
soluços tímidos. Sentiu-se ridícula e parou. Fechou os olhos decidida a se esforçar mais. Braços, pernas, cabelos de um lado para outro.
Aquela não era uma música que as pessoas costumavam dançar, mas tinha
uma bateria clara. A voz aguda, suave. A guitarra repetitiva. O baixo
repicando. Só precisava sentir tudo. E pular com mais coragem. E mais
coragem. E mais. E balançar a cabeça e deixar-se descabelar. Girar.
Isso! Girar. Balançar os cabelos, a cabeça, os braços. Parar de pensar.
Ao solo de guitarra, ao teclado, a bateria, Clara estava entregue. Solta. Livre. Mas o volume
foi baixando aos poucos e a música acabou. Ela perdeu o equilíbrio, cambaleou e abriu os olhos. Adriano estava a sua
frente, com um sorriso largo. Perturbada, Clara não fez e nem
disse nada. Ele estendeu o braço e falou: vem, eu te levo pra casa. Ela
aceitou e segurou a mão dele. Passaram pela sala, Raul tinha dormido com
a xícara, repleta de cinzas, no colo. Desceram as escadas. Leandro e
Marina conversavam na calçada. Ele tentava convencê-la a ficar mais um
pouco: o Raul ainda vai contar umas histórias, a noite é uma criança.
Quantos clichês, Clara pensou. E teve medo de corar, naquela idade,
quando percebeu a reação dos dois ao verem que ela e Adriano estavam de
mãos dadas.
Ah, não! É sério? Vocês dois? Que maravilha! Mas eu preciso arranjar amigos melhores, vocês são muito desanimados. Clara, você já vai também?
Marina
se abriu toda num abraço e apertou Clara e Adriano, ao mesmo tempo, dizendo: Finalmente!
Adriano ficou um pouco desconcertado e, terminado o arroubo de felicidade da moça, disfarçou agarrando Clara pela cintura, puxando-a para mais perto de si. Então voltou a atenção para Leandro: Desanimado é você, cara. A Clara
está tão animada que o carro dela vai ficar aí estacionado, e nós vamos à
pé. Ela interrompeu assustada: vamos? Ele levantou a mão
esquerda e mostrou novamente a tala, embora isso aqui não me impeça de
quase nada, andar de bicicleta, fazer flexão ou dirigir não são
atividades aconselháveis. E você bebeu um pouquinho, então vai pra casa
andando. Eu faço sua segurança. Tudo bem?
Tudo bem, ela
respondeu. Deixou quieto o fato de que não tinha bebido praticamente
nada. De qualquer forma, estar um pouco tonta era o álibi
perfeito para a dança esquisita que Adriano tinha acabado de flagrar.