quinta-feira, 2 de maio de 2024

Um motivo

 Todo mundo espera que eu tenha um motivo. Eu tenho, mas não é nada de demais. Não foi um grande evento, uma tragédia, ou uma desilusão que me trouxe aqui. Não. Só que um dia eu me sentei na praça de alimentação de um shopping, pra passar o tempo entre pessoas. Eu não tinha aonde ir, ninguém pra assistir tv comigo. Então eu me sentei no centro da praça de alimentação e fiquei lá. E uma criança desconhecida, um menininho de uns quatro, cinco anos, tinha um balão vermelho. Jogava para o alto e saia correndo pra alcançar e bater com a mãozinha sem deixar cair. Eu já brinquei disso, você já brincou. O balão subia e depois descia e o menino corria pra lá e pra cá, rindo alto, naquela agonia. Ele parecia estar bem feliz, a brincadeira parecia ótima, até que o balão bateu num canteiro de cactos e estourou. Foi aí que a coisa mais surpreendente aconteceu. O menino gritou - Graças a Deus, acabou! Entende? Ele ficou aliviado com o fato de o balão ter estourado e se sentou quietinho e sereno do lado da mãe, ou avó, sei lá. Resumindo, o menininho não estava feliz com a brincadeira. Aquela euforia, as gargalhadas, tudo, pura compulsão. Pura compulsão. Uma revelação pra mim. Minha vida inteira foi um corre pra lá, corre pra cá. Gargalhadas, eventos, namoros, festas, cursos, projetos. A plateia - cada vez mais escassa, porque a gente envelhece e vai deixando de ser interessante - olhava e achava que eu estava me divertindo, que eu estava me realizando profissionalmente, amando, vivendo intensamente... Mas era por pura compulsão que eu continuava. E quando o menininho me mostrou isso, eu tomei a primeira decisão consciente da minha história. Voltei. 

Como assim? Saiu do Shopping direto para a rodoviária? 

Ela riu e levou a mão à cabeça jogando os cabelos para trás num gesto que era mais tique nervoso que preocupação com o caimento dos fios. Depois suspirou com o olhar perdido e falou, você deve estar me achando uma doida, né? 

Mais ou menos. A história é interessante, não nego.

Não. Eu não abandonei minha vida e meu trabalho de supetão. Mas quando voltei para casa, naquele dia, já estava tudo planejado ou mais ou menos decidido. Pelo menos eu já sabia o que devia e o que queria fazer. Comuniquei a intenção de me desligar da empresa na semana seguinte. Acharam que eu estava blefando, que estava me fazendo de vítima para tentar ser promovida, receber um aumento. O mais engraçado é que, eu confesso, a ideia já era uma coisa meio abstrata que eu quase esquecia quando meu patrão veio pessoalmente me falar que tinha chegado o momento que eu tanto aguardava. Ela parou e riu-se outra vez, olhando para a ponta dos próprios pés, continuou: fui demitida, segundo a minha vontade, foi o que ele me disse. 

Nossa!

Pois é. Pegou o copo na mesa e deu um gole.

E você concorda com ele?

Como assim?

Considera que a decisão, foi sua?

Ela engoliu a cerveja com mais pressa do que havia planejado, para então responder. Foi. É meu jeito de tomar decisões. Mexo um pauzinho e, meio consciente, meio inconsciente, espero o resultado. Você não?

Não sei. Nunca reparei. Mas, com você falando, vou pensar e talvez chegue a essa conclusão. Parece lógico.

Ela soltou uma gargalhada um tanto artificial, mas até que envolvente, tomou mais um gole do copo que tinha permanecido em sua mão e terminou o assunto com um tom de voz irônico: É, eu sou muito lógica.