sábado, 11 de março de 2023

Os livros improváveis que tenho lido (e gostado) - Parte II

 Sobre Terapia e  Psicanálise: aleatoriedades que me levaram a esses livros

Era verão no Rio de Janeiro. Não gosto de lugares fechados e escuros, o que inclui cinemas. Meus sobrinhos assistiam Avatar II, enquanto eu e minha mãe matávamos tempo para o filme acabar e podermos voltar, finalmente, para a casa onde estávamos passando a semana. Depois de um rolê por todas as lojinhas das roupas que mamis adora, entramos numa livraria. Estávamos zanzando de estante em estante, a mãe achou esse livro que está na imagem aí em cima. Então ela o pegou, colocou na minha mão e disse que eu devia comprar para dar de presente para uma pessoa a quem conhecemos e que tinha mencionado que estava pensando em fazer terapia mas achava bobagem gastar dinheiro com isso. Na hora eu concordei que a leitura ia fazer bem para a tal pessoa, mas internamente eu já me sentia inclinada a comprá-lo para mim mesma. Não importa a minha idade, sempre tendo a esconder da minha mãe desejos como esse. Sei lá por quê. Freud deve explicar.

Arrependida por não ter comprado o vestido florido, mamis voltou às lojas de roupas e eu fiquei sozinha e feliz na livraria. Estava de boas, andando de estante em estante, vendo capas, lendo orelhas, e segurando esse Talvez Você Deva Conversar Com Alguém perto do peito quando percebi que uma senhora alta, de cabelos lisos e grisalhos, conversava comigo. 

_ você que se interessa por psicanálise, vai gostar desse aqui também. Enquanto dizia essas coisas, a senhora alta e grisalha apontava para o livrinho fino que se pode ver aqui:


Engatando uma fala na outra, ela me perguntou se eu estudava psicanálise. Respondi que não, mas achava interessante. Então ela contou que era professora e nós prosseguimos uma conversa na qual eu ouvia muito e falava quase nada. Interpretação dos Sonhos, o que seria a pulsão e o desejo para Freud. Outros assuntos foram se emendando uns nos outros. Ela perguntou de onde eu era. Falamos de Minas, de Pão de Queijo, de Juix de Fora, de Zona da Mata, de Alto Caparaó, de Ouro Preto, de Caratinga, de Café e de Jung. Mas aconteceu de a minha mãe aparecer brigando como se eu fosse uma criança porque, segundo a percepção de tempo dela, eu aparentemente tinha esquecido os meus sobrinhos no cinema. 

Comprei os dois títulos e deixo abaixo um trecho do Talvez você deva conversar com alguém da Lori Gottlieb, sobre o qual não poderei indicar a página por não tê-la anotado antes de dar o livro de presente para a tal pessoa. Sim, eu li e depois dei de presente. Livro não gasta, uai!

"Considerando todos esses desdobramentos, esperei que o humor de Rita melhorasse. Ela estava ganhando vida, levando uma existência menos restrita, tinha pessoas com quem conversar todos os dias, compartilhava seu talento artístico com quem o admirava. Não estava invisível como havia estado quando veio me procurar. Mas, mesmo assim, seu prazer, ou sua alegria, ou seja lá o que sentisse (“Acho que é agradável”, era o máximo que dizia), achava-se sob uma nuvem negra, uma ladainha contínua de como Myron, se ele realmente estivesse falando a sério no estacionamento da ACM, teria, para começo de conversa, namorado Rita, e não aquela desagradável Randie; como, por mais que eles fossem gentis, a família-oi não era sua família, e como ela ainda morreria só."

De onde surge esse interesse repentino por psicanálise

Primeiramente, devo dizer que tentei, mas não sou capaz. Assim mesmo, "não sou capaz" de me submeter à psicanálise. Li certa vez que a psicanálise é contraindicada para pacientes de TOC. Nas épocas em que fiz terapia cognitivo comportamental, fiz porque a indicação dos médicos foi bem específica. Contudo, minha incapacidade de lidar com a análise me torna uma pessoa bastante interessada em todos os detalhes dessa metodologia terapêutica e suas derivações. Tendo a insistir em coisas difíceis. Tendo a me obrigar a conseguir todas as coisas que tento. Tudo que não consigo me fascina.