Livros de supermercado:
Essa capa olhou pra mim por vários meses seguidos, do alto do caixa. Tenho poucos armários na minha cozinha minúscula, as prateleiras do supermercado em frente ao meu prédio me servem de despensa. Três, quatro vezes por dia eu vou lá para comprar pão, queijo, inseticida, havaiana, papel higiênico ou qualquer outra coisa que eu precisar. E sempre esse livro me encarava, com essas carinhas simpáticas estampadas na capa. Meu interesse começou por aí: eram homens bonitos, sorridentes, de mãos dadas. Depois o título me saltou aos olhos - O Ponto de ruptura - achei interessante: os dois homens de mãos dadas na capa estão rompendo o quê? Um dia, peguei pra ver o preço. Nove Reais, uma pechincha. Se fosse muito ruim eu usava as páginas para fazer colagens e ainda assim estava valendo a pena. Comprei.
Com o livro em mãos, pude enxergar o subtítulo: Hemingway, John dos Passos e o assassinato de José Robbles. Achei mais interessante: dos três nomes próprios eu só reconhecia o primeiro. Levei para o quarto e deixei na cabeceira. Li. E foi a melhor leitura que fiz em 2022.
Reconheci em O Ponto de Ruptura uma forma de escrita que sempre gostei, mas há muito tempo não encontrava das boas: biografias de escritores. Essa obra, porém, não é bem uma biografia porque mais do que dissertar cronologicamente sobre acontecimentos da vida dos "biografados", fala da amizade de Ernest Hemingway com John dos Passos e de como a manipulação política, no contexto da Guerra Fria, a envenenou. No meio do veneno há a guerra civil espanhola, a propaganda stalinista e o assassinato de um amigo em comum. É tanta coisa que fiquei até um pouco confusa a certa altura, mas a vida é complexa e não há meio de simplificá-la. E por mais que, em alguns momentos, as colocações do autor misturadas aos relatos históricos me deixassem com a impressão de "parcialidade exagerada pendendo para o lado capitalista tipicamente norte-americano", tive percepções muito novas sobre os métodos da propaganda comunista da década de 30. Percepções parecidas às que tive sobre o grupo revolucionário de Os Demônios de Dostoiévski, mas não vou viajar na maionese... hoje, não! - já combinei comigo.
Terminei a leitura gostando menos de Hemingway e querendo experimentar mais John dos Passos. Até andei procurando livros dele na estantevirtual. Pude perceber que há pouquíssimos em língua portuguesa e que as edições são muito velhas. Sendo assim, quando eu estiver impulsiva, vou acabar comprando alguma coisa dele no setor de livros importados da Amazon, que é pra eu gastar minha lenta e ineficiente leitura em língua inglesa na tentativa de conhecer o autor.
Sem mais explicações sobre o por quê de ser esse trecho, e não outro, deixo um pedacinho do livro logo abaixo:
"Hemingway tinha o hábito de arranjar culpados. Nos últimos anos de sua vida, essa falha de caráter se converteu em psicose: ele se tornou clinicamente paranóico. Mas desde o começo, sempre que as coisas iam mal ele arranjava alguém - que não ele próprio - em quem por a culpa. Estava convencido de que as pessoas queriam prejudicá-lo. Um curioso subproduto dessa convicção era a tendência de idealizar pessoas que havia rejeitado depois de tê-las rejeitado. Era a sua maneira de manter a máquina acusatória funcionando infinitamente. Se a pessoa rejeitada lhe parecesse realmente maravilhosa, Hem arranjava alguém para culpar por tê-lo feito excluir esse bom exemplo da sua vida [...]"
KOCH, Stephen. O ponto de ruptura: Hemingway, John dos Passos e o assassinato de José Robbles. Tradução: Pedro Jorgessen Jr. Rio de Janeiro: Difel, 2008. p. 28 - 29.
