Provavelmente Marie Curie tenha se salvado da ruína escrevendo essas páginas, que são de uma sinceridade, de um desprendimento e de uma nudez impactantes. É um diário íntimo, não foi pensado para ser publicado. Por outro lado, ela não o destruiu. Conservou-o. Claro que era uma carta pessoal dirigida a Pierre. Um último elo de #palavras. Uma espécie de cordão umbilical derradeiro com seu morto. Não me admira que Marie fosse incapaz de se desfazer dessas anotações desoladoras.
Confesso que, durante muitos anos, considerei uma indecência fazer uso artístico da própria dor. Abominei que Eric Clapton compusesse "Tears in Heaven" , a canção dedicada ao seu filho Conor, morto aos quatro anos de idade ao cair do 53° andar de um prédio em Nova York; e me incomodou que Isabel Allende publicasse Paula, um romance autobiográfico sobre a morte de sua filha. Para mim, era como se estivessem de algum modo traficando aquela dor que deveria ser tão pura. Depois, com o tempo, fui mudando de opinião. Na verdade, cheguei à conclusão de que é algo que todos nós fazemos: embora nos meus romances eu fuja com veemência do tom autobiográfico, simbolicamente estou sempre lambendo minhas feridas mais profundas. A origem da criatividade está no sofrimento, o próprio e o alheio. A verdadeira dor é inefável, nos deixa surdos e mudos, vai além de qualquer descrição e qualquer consolo. A verdadeira dor é uma baleia grande demais para ser arpoada. E no entanto, e apesar disso, nós, escritores, insistimos em dispor palavras no vazio. Lançamos palavras como que atira pedrinhas num poço radioativo até ficar cego.
Agora sei que escrevo para outorgar ao Mal e à Dor um sentido que na verdade tenho certeza de que eles não têm. Clapton e Allende utilizaram o único recurso que conheciam para poder lidar com o que aconteceu.
A arte é uma ferida feita de luz, dizia Georges Braque. Precisamos dessa luz, não apenas quem escreve, pinta ou compõe músicas, mas também aqueles que leem, veem quadros ou ouvem um concerto. Todos precisamos da beleza para que a vida nos seja suportável. Fernando Pessoa expressou isso muito bem: "A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta". Não, não basta. Por isso estou escrevendo esse livro. Por isso você o está lendo.
Rosa Montero
terça-feira, 17 de setembro de 2019
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Esse ano, eu já li
- Como funciona a ficção, James Wood
- A Redoma de Vidro, Sylvia Plath
- A Velocidade da Luz, Javier Cercas
- Primavera num Espelho Partido, Mario Benedetti
- O Sonho dos Heróis, Adolfo Bioy Casares
- O Som e a Fúria, William Faulkner
- Maus, Art Spiegelman
- Deuteronômio
- Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector
- A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Monteiro
- Onde Nascem os Gênios, Eric Weiner
- Só Garotos, Patti Smith
O plano era escrever alguma coisa sobre cada um, mas a vida engole a gente. Ainda tenho tempo até o final do ano, mas, de tudo por tudo, percebi que tenho muito mais facilidade para reclamar das coisas que não gosto do que dissertar a respeito de temas aleatórios que por algum motivo me agradam. Resumindo: sou uma chata.
- Como funciona a ficção, James Wood
- A Redoma de Vidro, Sylvia Plath
- A Velocidade da Luz, Javier Cercas
- Primavera num Espelho Partido, Mario Benedetti
- O Sonho dos Heróis, Adolfo Bioy Casares
- O Som e a Fúria, William Faulkner
- Maus, Art Spiegelman
- Deuteronômio
- Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector
- A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Monteiro
- Onde Nascem os Gênios, Eric Weiner
- Só Garotos, Patti Smith
O plano era escrever alguma coisa sobre cada um, mas a vida engole a gente. Ainda tenho tempo até o final do ano, mas, de tudo por tudo, percebi que tenho muito mais facilidade para reclamar das coisas que não gosto do que dissertar a respeito de temas aleatórios que por algum motivo me agradam. Resumindo: sou uma chata.
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