E de repente estava em pé com o celular ainda encostado na orelha. Já não havia mais voz do outro lado. Em meio ao mugido constante da cidade, ouviu som de sirene. Lembrou a letra de uma canção de rock: "As sirenes que se apressam pra salvar atropelados que morreram, tão depressa, tão depressa, depressa, depressa demais."
Em algum lugar, um infarto, um AVC, um último suspiro, tantos males possíveis. Mas por que não um parto? A possibilidade iluminou sabe-se lá o quê por dentro. E, sim. Era melhor abandonar a canção e pensar num parto!
Talvez a sirene corresse para um nascimento, por que não? Voltou a si. Estava mesmo de pé. A mão direita agarrada ao celular espremido com força contra a orelha. Silêncio. Não havia mais ninguém do outro lado.
O corpo todo ancorado na estante de livros. Incrédula e só. Dizia de si para si e sobre si. Sem objetivamente terminar de dizer. Meu... Estupefata... Deus! Quem ainda usa "estupefata"? Pensava ao mesmo tempo. Meu Deus! Por quê essa palavra agora? Três vezes. Agora? Agora. Agora! Meu... Estou... Deus!... Sozinha.
Só. Olhou os livros na prateleira à altura dos olhos.
História Concisa do Brasil, Boris Fausto, não li. Uma ideia toda Azul, li. A Genealogia da Moral, li. Esse aqui, não li, esse não li... não li... não li... Li.
Tirou a encadernação fininha e amarelada da prateleira. No Tempo Dividido e Mar Novo, Sophia de Mello Breyner Andresen. Abriu.
No alto da folha de rosto, um nome: Celso. Abaixo do nome, em caneta cinza: 1991. No meio da mesma página: Isabela e 2009, em caneta vermelha. Por que seu próprio nome não constava ali? Talvez porque nunca aquele livro tenha sido realmente seu. Não importa.
Em canetas distintas, em tempos distintos, na folha de papel amarelada, o encontro que nunca aconteceu.
Avançou as páginas sem rumo e foi parar num poema. leu e pensou que seria uma epígrafe e tanto.
"A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos".
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