Na verdade, essa questão de imputar responsabilidade não é uma espécie de desculpa? Nós queremos culpar um indivíduo para que todos os outros sejam isentos de culpa. Ou culpamos um processo histórico como forma de exonerar os indivíduos. Ou é tudo um caos anárquico, com a mesma consequência. Eu tenho a impressão de que existe, existiu, uma cadeia de responsabilidades individuais, todas elas necessárias, mas não uma cadeia tão longa que todo mundo possa simplesmente culpar todo mundo. Mas, é claro, meu desejo de atribuir responsabilidade pode ser mais um reflexo do meu próprio modo de pensar do que uma análise justa do que aconteceu. Esse é um dos principais problemas da história, não é senhor? A questão da interpretação subjetiva versos a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador a fim de entender a versão que é colocada diante de nós. (BARNES, Julian. O Sentido de um Fim. Rio de Janeiro: Rocco: 2019, p. 23)
No trecho acima transcrito de Sentido de um fim, o co-protagonista Adrian Finn fala sobre a primeira guerra mundial no contexto de uma aula de história, no ginásio ou um grau equivalente, inglês, século XX, década de 60. O livro todo é uma tentativa do protagonista, um historiador fictício, de entender em retrospectiva seu papel na história pessoal do amigo morto.
De certa forma, esse romance me alcançou em algo muito pessoal e atual em mim: tenho me distraído aqui dentro, horas a fio, tentando entender o real papel que ocupo na história dos meus amigos e entes queridos. Já houve tempo da constante problematização interna que me habita ser "qual o papel dos outros na minha história". Talvez a inversão de foco sinalize amadurecimento, ou desilusão. Também me pergunto se amadurecimento e desilusão são a mesma coisa, mas aí é outro livro, outro dia, outro texto quem sabe.
Independente de questões pessoais ou existenciais minhas, penso que a História, essa que nossos professores escreviam com H maiúsculo, que se estuda em escolas e universidades, que trata de grandes guerras, e fomes, e revoluções, no final das contas, deve ser também entendida como o ato de pensar o significado da nossa própria vida e o papel dela para as vidas que já se foram. Ou o sentido do nosso tempo é que esclarece o que já foi.
Nos últimos tempos venho fortalecendo a opinião de que o grande sofrimento humano advém do fato de se ser capaz de pensar coisas grandiosas sendo tão pequeno. Nós pensamos, percebemos, imaginamos coisas muito maiores do que nós mesmos, mas somos limitados demais para compreende-las de verdade. No máximo, as possibilidades de compreensão nos aparecem em forma de miragens no "momento de um perigo", como escreveu Walter Benjamin em suas belas e desiludidas Teses sobre o conceito de história. E se assim acontece, nós nos animamos e seguimos enérgicos na direção da miragem que desmancha no ar toda vez que nos aproximamos.
Das coisas grandiosas que existem para serem pensadas, a maior delas, claro, é o sentido da vida. E ao escrever isso, não consigo não lembrar do Guia do Mochileiro das Galáxias e da grande máquina construída, com o emprego de recursos inimagináveis, objetivando um cálculo exato que desse como resultado a resposta inquestionável à maior pergunta de todas. Quem já leu o romance de iniciação nerd sabe que a resposta alcançada pela máquina e também sabe o quão sem sentido ela é.
Talvez seja mesmo melhor não se ocupar em tentar juntar variáveis infinitas na busca do sentido absoluto da vida e, simplesmente, delimitar uma porção de variáveis só um pouco menos infinitas. Ou seja, trocar a maior pergunta de todas pelas segunda maior pergunta de todas: qual o sentido da minha vida?
O sentido da própria vida é uma coisa grandiosa um pouco menor, mas tão incompreensível quanto o sentido da vida. E ter a intuição desses sentidos é pior do que nem saber que pode haver um sentido. A sensação de que algo muito valioso está se perdendo e de que não podemos fazer nada porque simplesmente somos burros demais para entendermos o que está se passando me parece terrível. E é por isso que sinto a necessidade de Deus. Precisamos de um ser maior que veja o todo por nós ou o todo estará perdido? Bom, eu preciso.
Encontrei o seguinte parágrafo anotado num caderninho que usei durante o primeiro ano do mestrado, só com o nome do autor, Edward Thompson, rabiscado no final da página:
A história não pode ser comparada a um túnel por onde um trem expresso corre até levar sua carga de passageiros em direção a planícies ensolaradas. Ou então, caso seja, gerações após gerações de passageiros nascem, vivem na escuridão e, enquanto o trem ainda está no interior do túnel, aí também morrem. Um historiador deve estar decididamente interessado, muito além do permitido pelos teleologistas, na qualidade de vida, nos sofrimentos e satisfações daqueles que vivem e morrem em tempo não redimido.
Penso que a teoria da história seria bem representada por uma cobra que morde o próprio rabo. Alguém já fez essa representação? Porque o Thompson, por exemplo fala que temos que pensar mais na qualidade de vida, sofrimentos e satisfações daqueles que vivem em tempo não redimido indo além dos teleologistas. Mas centrar-se nessas questões sem a perspectiva de um caminhar para algum lugar não seria o mesmo que abandonar aqueles que viveram em tempo não redimido no tempo não redimido?
Bem, numa postagem passada, eu disse que escreveria um pequeno texto sobre o último capítulo de Devoção da Patti Smith. Não escrevi, mas vejo aqui a possibilidade de fazer uma ligação entre ele e O Sentido de Um Fim, levando a reboque todas as reflexões que o pequenino romance do Julian Barnes me fez tecer. Não quero estragar a leitura do livrinho da Patti Smith para quem ainda não a realizou, mas preciso dizer que ele termina concluindo que se escrevemos, o fazemos porque viver não nos é o bastante. E sim, isso lembra bastante a afirmação do Fernando Pessoa de que a arte existe porque a vida não basta, mas tendo a pensar a expressão final de Devoção como algo muito mais ligado à disciplina histórica do que à poesia, embora não seja um absurdo entender uma como descendente da outra. Pensando nessa direção, eu me arrisco a afirmar que também escrevemos história porque a vida não nos basta. E não nos basta por sermos tão pequenos: exceto por uma sutil intuição, o sentido de nossa existência nos escapa em tudo. E por nos escapar é que nos ocupamos do artesanato delicado que é a construção de cadeias de existências e possibilidades de sentidos através da escrita da história.
Filosofei demais? Filosofei errado?
Acho que uma sensação semelhante está presente nas Teses Sobre Conceito de História do Walter Benjamin.
Explico.
Na Tese I, Benjamin constrói uma alegoria formada por um suposto autômato jogador de xadrez, na verdade um fantoche, movido por um corcunda anão. Depois ele revela que o tal fantoche é o materialismo-histórico e que o anão escondido, que controla os movimentos sobre o tabuleiro, é a teologia. E, então, para completar ele afirma que "o materialismo-histórico ganhará sempre[...] desde que tome a seu serviço a teologia".
Logicamente falando, teologia é a descrição dos mecanismos de uma fé e não a fé mesma. Então o conceito de história que Benjamin elabora terá o mesmo mecanismo dos tipos de fé que são mais familiares ao filósofo, será portanto o de um tempo que caminha para a conclusão final: um mecanismo teológico sem um conteúdo divino, uma vez que sua conclusão final é o paraíso dos homens para os homens, ou seja, o comunismo.
Mas aí surge um problema ético que eu descrevo com a seguinte pergunta: como ficará tudo o que foi vivido até o momento glorioso da igualdade completa? Nesse mecanismo teológico sem conteúdo divino, as vidas tomadas em conjunto terão um sentido, sim, serão o somatório necessário para se chegar ao comunismo. Mas o que dizer do sentido das vidas tomadas individualmente? Estará perdido? Para sempre?
Edward Thompson descreveu esse problema da seguinte forma:
A história não pode ser comparada a um túnel por onde um trem expresso corre até levar sua carga de passageiros em direção a planícies ensolaradas. Ou então, caso seja, gerações após gerações de passageiros nascem, vivem na escuridão e, enquanto o trem ainda está no interior do túnel, aí também morrem. Um historiador deve estar decididamente interessado, muito além do permitido pelos teleologistas, na qualidade de vida, nos sofrimentos e satisfações daqueles que vivem e morrem em tempo não redimido.
É na solução desse problema que vejo Walter Benjamin ter uma sensação semelhante a minha necessidade de Deus. Na segunda tese, ele diz:
[...] nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. [...] Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. [...] Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo[...]
Ali na segunda tese, o todo não percebido, não vivido, não sabido está presente na evocação do passado nas coisas presentes, uma outra forma de se intuir a "cadeia de responsabilidades" do personagem Adrian Finn. E para que esse todo não esteja perdido para sempre, há de haver uma "salvação" que, sem Deus, estaria em cada um de nós por meio da "frágil força messiânica" exercida na capacidade de escrever história, ou seja, cutucar o passado, fazê-lo reviver.
Acho esse argumento lindo, mas frágil. Diante do fim eminente da própria humanidade, ele se torna completamente ineficaz. De qualquer forma, eu não pretendia escrever sobre a salvação secular ou religiosa, sobre a redenção benjaminiana marxista, ou sobre a judaica, ou cristã, ou muçulmana. O que realmente me chamou atenção enquanto eu lia O Sentido de Um fim, e parava de tempos em tempos para deixar meu cérebro vagar em pensamentos evocados pelo texto, é a repetição dessa necessidade de evitar que o todo incompreendido por nós, não sabido por nós, inapreensível por nós, se perdesse.
"Tempo não redimido" seria esse todo perdido, não visto, não sabido?
Acho que Mayakovski está pensando nesse tempo perdido quando pede em verso "Ressuscita-me".
Penso que o título Tempo Perdido do Renato Russo também se refere a esse todo não apreendido, algo que o personagem Adrian Finn chama de "cadeia de responsabilidades individuais". "Somos tão jovens", sim!, mas o que será quando não formos mais?
Sem dimensionar nossa existência, ainda que imprecisamente, no tempo e no espaço do todo não seria nem certo e nem errado, por exemplo, poluirmos os rios, destruirmos as matas, colaborarmos com genocídios e assim por diante.
Qual o lugar exato de cada um de nós no mundo e no que está acontecendo com ele? Ou, numa escala bem menor, e que mesmo assim não damos conta, qual o meu papel exato na história do outro? São questões que me interessam desde muito tempo.
Não estou me expressando com coerência, mas voltarei aqui para desenvolver essa ideia com mais tempo. Assim que eu mesma avançar no entendimento dela... Pode demorar.

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