sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

 

 Podemos tomar como prova de que Narciso acha feio o que não é espelho o quanto o espelho, pelo contrário, o encanta. Dia desses, eu estava lendo o Êxtase da Transformação, de Stefan Zweig, e dei por mim emocionada diante do reconhecimento que o trecho transcrito abaixo me fez sentir: 


 Ele coloca plantas secas em seu herbário, ao pé das folhas de flores ressequidas e prensadas, escreve com caligrafia caprichada os nomes latinos em tinta vermelha, os nomes alemães em tinta preta, encaderna ele próprio, em capas de papelão de estampa colorida, seus adorados cadernos vermelhos de propaganda, e na lombada, com uma pena de desenho bem aguçada, e com precisão microscópica, ele imita perfeitamente as letras de imprensa. Tarde da noite, quando sabe que todos os vizinhos estão dormindo, ele toca violino de partituras por ele próprio copiadas, um pouco duro, mas com bastante esforço, em geral Shubert e Mendelssohn, ou então ele copia de livros emprestados os mais belos versos e pensamentos sobre folhas em quarto de papel delicadamente granulado, e sempre que completa uma centena ele as reúne num novo álbum com papel acetinado e rótulo colorido. Como um árabe copiador do Corão, ele ama na escrita as curvas suaves e o sombreado leve que depois se projeta fortemente, apenas pela muda alegria, que, silenciosa, mas bem viva, emana de seu tenso esforço interior e se torna visível: os livros são para esse homem humilde, calado, vegetativo, que não possui jardim em frente à sua casa comunitária, as flores dentro do lar, ele gosta de enfileirá-los na estante em alamedas coloridas; com o prazer de um velho jardineiro ele cuida de cada um, toma-o em suas mãos magras e exangues como algo frágil.


No início desse tempo louco, tentei ver o isolamento por um ângulo positivo e encarei 2020 como tempo  de botar em dia as leituras que aguardavam ociosas na estante. Alguns livros de historiografia, alguns de teoria, livros em inglês, livros em espanhol, livros em português, revistas, e muita literatura da mais diversa qualidade. No meio do caminho, porém, fui atropelada pelas exigências extras do teletrabalho, pela dor na coluna e por um desânimo colossal. O resultado é que o ano está acabando e eu li muito pouco. Em compensação aprendi a tocar ukulele e estou desenhando, altas horas da noite.

Cheguei ao Êxtase da Transformação assim (aliás, que título bonito): eu estava na minha casa para pegar roupas e documentos e minha amiga falou, leva esse livro. Eu acatei a sugestão e o trouxe para o exílio na casa da mãe. Isso aconteceu em julho, ainda estou na página 38. 

Acho que em junho, eu tinha começado a ler o Sentido de Um Fim, do Julian Barnes. Não foi uma leitura ruim, não mesmo. Mas deixou um gosto amargo, sabe? Não ruim, mas amargo. Acontece que, num dado momento, uma personagem desse romance dizia que estava lendo um livro do Zweig. Não é que eu tenha pensado que eu também devia ler porque a personagem estava lendo, mas... Quem me conhece sabe que sou dada a sinais. É que mesmo racionalmente não considerando os sinais como sinais, eu sou bem sugestionável. Aí, naquela altura, o Êxtase da Transformação do Stefan Zweig estava estacionado no criado mudo, olhando pra mim... Peguei. 

Comecei pelo prefácio e... O autor austríaco morreu no Brasil (?!). Uma história triste. Bem no meio da Segunda Guerra, ele já instalado e a salvo em terras austrais, com a esposa, recebendo notícias sobre as últimas conquistas nazistas, sobre a aparente vitória iminente de Hitler... Zweig achou que o mundo já não valia mais a pena e se matou. Melhor dizendo, em comum acordo, o casal cometeu suicídio. E isso me fez pensar em O Sentido de um fim como um escrito meio sádico: porque citar justamente Zweig?

No final das contas é melhor não buscar os sentidos. Talvez mais justo. Talvez mais ético? O tema suicídio só pode levar a mais suicídios? Por que pessoas deprimidas se sentem tão atraídas pelo tema? Digo pelo tema mesmo, não só pelo pensamento. São autores suicidas, histórias de suicídio, e  qualquer outra forma pela qual o tema possa ser abordado.

Eu não pretendia correr por esse caminho quando comecei a escrever isso aqui. Só queria mesmo dizer que me apaixonei pelo personagem descrito no trecho que transcrevi e, consequentemente, admirei o autor de o Êxtase da Transformação por tê-lo construído com tanta delicadeza. Ou talvez, nada disso. Talvez eu tenha é me apaixonado pelo fato de eu estar descrita (guardadas as devidas adaptações) num livro austríaco do início do século XX. Tão distante, tão eu! Literatura também serve para isso, né. Pra gente se sentir menos só nesse mundo. 

Mas voltando às impressões sobre O Sentido de um fim e as relações que ele estabelece com o Êxtase da Transformação: tentei escrever alguma coisa sobre o gosto amargo que o romance do Julian Barnes deixou depois de terminado e separei um pedacinho da narrativa para remoer antes de botar a mão na massa. 


Na verdade, essa questão de imputar responsabilidade não é uma espécie de desculpa? Nós queremos culpar um indivíduo para que todos os outros sejam isentos de culpa. Ou culpamos um processo histórico como forma de exonerar os indivíduos. Ou é tudo um caos anárquico, com a mesma consequência. Eu tenho a impressão de que existe, existiu, uma cadeia de responsabilidades individuais, todas elas necessárias, mas não uma cadeia tão longa que todo mundo possa simplesmente culpar todo mundo. Mas, é claro, meu desejo de atribuir responsabilidade pode ser mais um reflexo do meu próprio modo de pensar do que uma análise justa do que aconteceu. Esse é um dos principais problemas da história, não é senhor? A questão da interpretação subjetiva versos a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador a fim de entender a versão que é colocada diante de nós. (BARNES, Julian. O Sentido de um Fim. Rio de Janeiro: Rocco: 2019, p. 23)

 

Devo dizer que venho botando a mão na massa - escrevendo e apagando - desde então, mas ela não pára de desandar. No trecho transcrito acima, o co-protagonista do romance de Barnes estava falando sobre a primeira guerra mundial no contexto de uma aula de história, no ginásio ou num grau equivalente, inglês, século XX, década de 60. O Sentido de um Fim  me pareceu uma tentativa do protagonista (ou do autor), um historiador fictício, de entender em retrospectiva seu papel na história pessoal do amigo suicida. Eu tive a impressão, bastante embasada em digressões teóricas salpicadas por todo o romance, de que o autor pensava na trama que desenvolvia como uma micro demonstração de uma responsabilidade que também seria verdade numa escala muito maior. Em outras palavras, as preocupações do protagonista quanto à sua responsabilidade no desfecho trágico do co-protagonista também valeriam, portanto, para a sociedade, para as ações coletivas.  E vice-versa. 

Sinto que estou metendo os pés pelas mãos ao tentar explicar meu pensamento. Uma vizinha começou a ouvir funk no último volume e minha mãe assiste novela no cômodo ao lado: parei de pensar. Mas, de repente, lembro de uma expressão que li na biografia que apresentou o Mikhail Bakhtin para mim, há muitos anos atrás - "arquitetônica da responsabilidade", das maiores preocupações do filósofo, embora ele mesmo não tenha cunhado a expressão, ou pelo menos era isso que dizia a biografia escrita pela Katerina Clark e por Michael Holkist (não consegui provar por mim mesma na obra do Bakhtin, ainda). O fato é que não vou poder conferir tão cedo a tal biografia, já que não a encontro em PDF, estou lenta com as leituras mais simples, e minha versão impressa está lá na minha casa, em Mariana. Remoer o assunto até o ano que vem é, no entanto, inevitável.



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