Sentada no meio do banco de trás de um Ford K, Ana seguia protegida do sol que ardia a cada lado seu. É verdade que quase não existia espaço para suas pernas, mas a pele e os olhos dos jovens ao seu lado brilhavam tão intensamente que parecia ter sido um bom negócio se sentar no pior lugar do carro. O rapaz à esquerda, barba, camisa estampada com botões abertos até o peito, esticou o pescoço por entre os bancos da frente, debruçando-se levemente sobre o colo de Ana. Nessa posição, gritou ao pé do ouvido do motorista: sabe das últimas notícias sobre investigações policiais no estado de São Paulo? O caroneiro da frente, um rapazinho magrela, torceu o pescoço para acompanhar a conversa. O motorista respondeu que não sabia. O barbudo continuou, a polícia do estado de São Paulo expediu uma ordem de prisão pra Bakunin.
Pelas janelas abertas do veículo, entrava um vento rebelde que fazia o caos nos cabelos dos passageiros. O barulho do motor e o movimento do ar abafavam qualquer outro som. Provavelmente por isso o motorista não entendeu e perguntou, o quê?! Como quem já esperava pela pergunta, com a cabeça ainda entre os bancos o jovem repetiu: a polícia de São Paulo expediu uma ordem de prisão pra Ba-ku-nin.
E quem é esse Bakunin?!
Ana interviu dizendo que era um dos teóricos criadores do anarquismo. Essa antecipação, porém, não teve efeito por muito tempo. Empolgado com a legitimidade que a informação tinha acabado de dar àquela anedota, o barbudo inclinou mais uma vez seu corpo suado para explicar que militares ignorantes estavam achando que iam prender um filósofo do século XIX. Como eram burros os fascistas!
Os três jovens riram e concordaram que fascistas eram sempre muito burros. O quarto caroneiro, que se sentava do lado direito de Ana, e que até aquele momento tinha se mantido isolado em pensamentos com um imenso headphone tapando as orelhas, deve ter ficado curioso com os movimentos animados dos outros rapazes e tirou o fone para participar da conversa. A anedota foi repetida para ele. Todos os rapazes riram como se a ouvissem pela primeira vez. Ana pretendia não opinar, mas a cada fala o equívoco temporal se tornava mais e mais evidente. Até que ela não aguentou e perguntou ao jovem barbudo - Onde você viu essa notícia?
O barbudinho ergueu a coluna e voltou a ocupar estritamente sua parte do banco. Com o rosto tomado pela claridade, seus olhos castanhos se tornaram amarelos. Ele os fixou naquela mulher estranha a seu lado, para quem ainda não tinha olhado, e respondeu - vi ontem, no tiktok.
- Essa notícia é antiga.
- Não é, aconteceu mesmo.
- Não estou dizendo que não aconteceu, mas isso foi durante as jornadas de maio, em 2013.
O rapaz ficou sério, - como você sabe?
- Eu lembro.
O caroneiro da frente torceu o pescoço mais uma vez, queria enxergar Ana com nitidez enquanto dizia - lembro vagamente desses protestos no Jornal Nacional, mas eu tinha só treze anos, estava mais preocupado com a janela sem cortina da vizinha e com qual time eu ia jogar o Fifa. Não dava muita importância pro resto. Você participou de alguma manifestação?
- Eu até podia ter feito isso, tinha vinte e poucos anos na época, mas achava aquilo ridículo.
Todos os olhares, menos o do motorista, que por motivos óbvios continuava prestando atenção na estrada, se voltaram pra ela. O barbudo então perguntou - quantos anos você tem?
O motorista riu dizendo que não se fazia esse tipo de pergunta para uma mulher.
Ana respondeu se dirigindo ao motorista, ao invés do rapaz que tinha feito a pergunta - trinta e quatro, eu não ligo de falar minha idade, Caio. Não entendo porque é um problema pra algumas pessoas.
Por alguns segundos todos ficaram calados, somente se ouvia o rugido do motor e do vento. Até que o jovem da direita, que não tinha dito nada ainda, opinou - nunca que parece que vc tem trinta.
Ana emendou - e quatro. Você acha? Obrigada. Está vendo? É melhor receber esse tipo de reação e ser uma velha conservada do que mentir a idade e virar uma mocinha acabada. Nesse instante, os rapazes continuaram sérios. Ana, diferente deles, sorriu pela primeira vez desde a decisão de fazer aquela viagem.
O barbudo quis voltar ao assunto dos protestos de 2013, mas antes se apresentou - você é Ana, né? Eu sou Tiago.
- Muito prazer, Tiago.
- Por que você achava os protestos ridículos?
- Bem, eu não sei se estou com a cabeça boa o bastante para conseguir explicar. Então... Lembro que tudo começou com uma manifestação de estudantes, na cidade de São Paulo, por um motivo exclusivamente paulista. Trinta centavos de aumento no preço de passagens de ônibus.
- O aumento do preço da passagem é uma demanda importante.
- Claro, pra quem paga aquela passagem, naquele lugar específico. Não quero dizer que não era um assunto importante. Ainda não cheguei no ponto. Pra chegar onde eu quero chegar, preciso contextualizar que tudo começou com essa manifestação de estudantes, sobre um assunto local. Só que o governo do estado de São Paulo foi com toda a força policial pra cima daqueles estudantes desarmados. Isso causou uma comoção entre pessoas que não eram estudantes. Vamos chama-los de adultos, só para separar os grupos, didaticamente. Mas idade não era a questão. A questão é que a truculência de um governo, transformou um protesto específico numa demonstração de desagrado com o poder e com a forma que ele vinha sendo exercido. Aí, na hora de demonstrar essa insatisfação, o povo... Os diferentes grupos que formam o que a gente chama de povo, foram todos pra rua. Cada grupo, por mais insignificante que fosse, levou sua demanda, sua reivindicação, sua insatisfação. E a coisa que começou em São Paulo, por 30 centavos de aumento no preço da passagem, cresceu e tomou o Brasil inteiro. Até que eu estava em casa, assistindo o Jornal Nacional, como você - ela apontou para o magricela - e o que eu via era uma multidão na lage do Palácio do Planalto. Os políticos todos lá dentro e os manifestantes em número, em massa, em cima, em volta, em toda parte. A polícia não daria conta deles se quisessem mesmo fazer uma revolução e tomar o poder. Mas não queriam nada específico, nada! O que se mostrava alí era mera insatisfação, sem proposição. Engraçado é que fizeram uma pesquisa naqueles dias, sobre a aprovação da presidente. E ela estava no auge. Eu não lembro os números, mas era uma coisa de gerar machete em revista estrangeira de tão grande. Isso eu não sabia com tanta clareza na época, mas negar tudo e todos, sem propor absolutamente nada foi uma das grandes características do mais terrível fascismo. Não deveria ter sido uma surpresa que, pouco tempo depois, esse país mergulhasse na onda conservadora em que mergulhou.
Houve instantes se silêncio. Foi Caio, o motorista, quem interrompeu com a pergunta - e você já sabia disso tudo quando via os protestos no Jornal Nacional?
- Não. Mas eu senti que alguma coisa não caia bem.
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